Rosana Paulino: da arte afro-brasileira para arte da afro-diáspora
- Diogo Nógue

- 21 de mai.
- 7 min de leitura

Artista negro e sua época
Rosana Paulino é uma das principais artistas brasileiras das ultimas duas décadas, sua força e primazia na articulação entre materiais, imagens e o espaço expositivo são algumas das características marcantes de sua pesquisa, que, mesmo sem investimentos e financiamento do mercado hegemônico, desenvolveu estratégias para manter sua produção ininterrupta e pulsante até que, mais recentemente, conseguiu possibilidades de viver de sua criação.
Sua importância se dá não apenas por trazer para o campo da arte contemporânea discussões de linguagens e técnicas inovadoras, mas também por sua existência ser o resultado da luta secular dos africanos da diáspora. Não foi fácil sobreviver nesse território que, por consequência do colonialismo e capitalismo, chamamos de Brasil.
No texto da exposição "Encanto: artevivência da Afro-diáspora" recuperei a reflexão filosófica sobre como pensamos a realidade a partir de uma cultura comunitária. E a partir dessa discussão, como o racismo estrutural e a colonialidade moldam nossa percepção de mundo.
Neste processo, enquanto artistas negros ao longo da história da arte brasileira, vemos que o contexto e construção de conceitos e letramentos para a compreensão de mundo em que somos forçados a sobreviver, ditam também tecnologias e estratégias daquele período para combater preconceitos, ou alcançar relativa liberdade.
Quando pensamos nos artistas negros do final de 1800, como por exemplo Estevão Silva, ser artista era dominar as regras acadêmicas de representação. Os que assim faziam eram portanto superiores, dotados de uma aura que abrilhantava sua humanidade e como eram vistos pela sociedade. Por outro lado, as pessoas negras eram ditas como sem alma, não humanas pela filosofia Iluminista e inicio das teorias raciais baseadas em pseudociência que, por essas teorias, eram definidas com intelecto inferior perante o Homem Branco.
Para combater essa narrativa, um homem negro devia mostrar sua capacidade de civilidade, inteligência e humanidade no mesmo território de disputa que era posto pela sociedade violenta, antiética e escravocrata da época. Como a história nos conta, Estevão Silvam mesmo ultrapassando esse domínio técnico e visto por seus pares como o melhor pintor de natureza morta na academia imperial de belas artes da época. Não teve seu valor reconhecido por diversos fatores para além da pintura, sendo sua racialidade e o modo como seus professores o viam, determinantes para essa barreira imposta em sua vida.
O domínio da Técnica
Um desafio semelhante se apresenta a Rosana Paulino, em uma outra academia. Com dificuldades adicionais, é uma mulher negra em um ambiente da supremacia do homem branco que se fundamente em literaturas criadas por outros homens brancos; que constroem a realidade a partir da visão patriarcal e ocidental de mundo.
Como estudante no curso de artes na mais conceituada universidade brasileira (USP) em um momento de transição na politica, após alguns anos da constituição de 1988 e inicio do neoliberalismo na economia. Rosana conquistou com seu trabalho e inteligência aliados importantes que colocariam sua pesquisa artística em destaque.
Em contexto artístico mundial , e com uma sensibilidade acurada no olhar, Paulino encontra uma fresta para trabalhar a imagem de pessoas negras de forma potente, utilizando a investigação da fotografia e transferência de imagens nos processos da gravura.
Para ser um artista neste período no Brasil, era preciso o domínio de alguma técnica, ou ser de famílias com capital social, cultural ou econômico relevante. Ainda hoje, é muito caro para um artista desenvolver pintura e esculturas em medidas e materiais apreciados pela história da arte europeia. Assim como os cursos para desenvolvimento as técnicas acadêmicas de representação. Um outro caminho era ter os contatos certos, e estar na academia, e performar a identidade do artista era um facilitador, mas que tem um recorte de gênero e raça. Pois primeiros vem os homens brancos, depois as mulheres brancas, os homens negros e por ultimo a mulher negra.
Rosana vai encontrar na presença simbólica da fotografia e no domínio da técnica atrelada ao desenvolvimento teórico e intelectual da academia, uma base incontestável para que sua produção invadisse o circuito artístico contemporâneo nacional e internacional.
Contexto Político
Na década de 1990, o Brasil ainda fingia viver uma democracia racial e social na produção cultural. Mesmo nas novelas da Globo, principal parâmetro da época, quase não se viam pessoas negras, a não ser nas novelas de época — que romantizavam o período escravocrata — ou em papéis de bandidos, empregados e subalternos. Porém, o movimento negro, em diferentes frentes, ia contestando essa estrutura racista e causando constrangimento para a branquitude. Contra tudo e contra todos, famílias negras estavam conseguindo colocar alguns de seus filhos na universidade; estudar era a via mais segura de escapar ao extermínio, mas não garantia nada.
Como a própria Rosana Paulino diz em entrevistas e palestras, ela não tinha referências, enquanto mulher negra, de outras artistas e pesquisas no Brasil ou fora dele. Num período pré-internet, era muito difícil conseguir informações. A tradição acadêmica exige um ancoramento bibliográfico, seja na história da arte europeia ou em teóricos das ciências acadêmicas. Desta forma, além de textos de antropologia, biologia e história, Rosana vai encontrar no movimento Hip-Hop e no Rap conceitos que levará para a sua arte: discutir de maneira direta as contradições do Brasil, o racismo e a violência contra as mulheres. Remixando imagens e comentando a história oficial brasileira, ela supre esse dogma de referenciar a história da arte ou do país para contextualizar sua produção.
Desta forma, era impossível ignorar a produção de Paulino, e nem ao menos podiam diminuí-la, já que a artista dominava os parâmetros exigidos pela sociedade branca. A escrita de uma pesquisa e o domínio da base teórica europeia a impediam de ser taxada como Naïf. O domínio da linguagem e da técnica, em coerência com um discurso atual e potente, a tornavam impossível de desqualificar enquanto produção de arte contemporânea, longe do que os museus queriam consagrar naquele momento — como, por exemplo, os neoconcretos, a arte de uma classe média branca higienizada, camuflada por cores, formas e geometrias de um Brasil que saiu das trevas da ditadura.
Sem dúvida, esse período da produção de Paulino é uma arte afro-brasileira, misturando o patuá, o crochê e o bordado com imagens de pessoas negras, utilizando a história dos objetos e das imagens para compor sua poética. Além das questões políticas, seu trabalho explora a arte no campo expandido, a instalação e processos complexos de produção de imagens e conceitos simbólicos.
Explicitar o óbvio de maneira direta, preocupando-se com a forma e o conteúdo, mas sem rodeios — o "papo reto" da cultura Hip-Hop —, é um dos fatores que torna os trabalhos iniciais de Paulino tão certeiros quanto um Rap dos Racionais. Porém, por ser uma denúncia feita por uma mulher negra, também vão dizer que esta é uma "arte identitária". O que não se diz é que toda arte feita por um homem branco é identitária e, muitas vezes, supremacista.
Ao longo de sua produção, Rosana Paulino evidencia estratégias de produzir arte enquanto uma artista negra que passa inicialmente por uma arte afro-brasileira, mas que aponta, ao meu ver, para que artistas negros produzam uma arte africana da diáspora. Tendo como objetivo, talvez em um futuro, que possamos ter uma nacionalidade e uma identidade de território que não sejam marcadas pela violência colonial, mas sim por uma reconstrução cultural e simbólica, resgatada por nós e para nós, pessoas negras e indígenas.
O corpo negro e a violência fotográfica

É inevitável a relação da fotografia e a violência junto ao corpo negro, e como essa linguagem é um dos poucos registros históricos que temos de nossos antepassados. Assim, ao mesmo tempo que essas imagens constroem uma simbologia da desumanização do sujeito negro que é perpetuado no lugar de sofrimento, punição, e roubo da dignidade. Também são nosso terreno de pesquisa sobre o que fomos e de onde viemos.
Ao longo de nossas vidas, o registro de nosso retrato é feito para adentrar no sistema do racismo estrutural do estado brasileiro. Desde a foto do RG, carteira de trabalho, fichas criminais. Porém, muitas famílias negras, a minha por exemplo, dão grande valor ao registro fotográfico. Esta tentativa de evitar o apagamento da nossa história, de preservar memórias, vem muitas vezes do medo desse passado apagado. Enquanto a supremacia branca busca eternizar o individual e separando indivíduos como acima da média. Nossa preocupação é em preservar a história de pessoas comuns, a história dos marginais e normais, são o registro de uma força e resistência de gerações de pessoas negras que lutaram para recuperar o mundo para seus futuros descendentes.
Fora desses momentos em que a fotografia é usada para formatar o sujeito negro: as fotos de nascimento; batizado; aniversários; casamento - são momentos em que as pessoas negras usam para construir a própria memória e a construção da própria história.
É essa mescla que o trabalho “Parede da Memória” nos traz. O deslocamento da imagem de uma foto 3x4 do universo da padronização de um documento, para a aura única de uma obra de arte. As fotos de batizado e de registros de nascimento que geralmente ficam guardadas em caixas em fundos de guarda-roupas ou gavetas, para a parede de um espaço expositivo público.
A presença da fotografia e seu fator indicial que traz a presença física e factual da existência daquelas pessoas. Apresentadas em espaços que até hoje são frequentados em sua maioria por pessoas brancas, aqueles olhares encarando esse público, é incomodo e denuncia a violência, apartheid e tentativa de apagamento contra nossa população.
Assentamento como ressignificação da violência
Nos trabalhos dos anos seguintes como a instalação “Assentamento” Rosana Paulino vai resgatar a imagens de pessoas negras registradas em momentos de violência. Imagens criadas para afirmar uma desumanização de africanos e utilizadas em pseudociências como a Frenologia.
Paulino ressalta que nesses trabalhos ela propõe a reconstrução desse sujeito em um novo território, mas que essa reconstrução é marcada pelo trauma, por uma sutura que é feita: Pelo lado do colonizador, para arrancar o máximo de força de trabalho daquele ser humano objetificado. Já pelo escravizado, uma luta por sobrevivência, necessidade de se reconstruir para alguma esperança de futuro.




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